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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Ganhador do Oscar?



Como uma produção modesta, rodada na Índia com câmera digital e atores desconhecidos, conseguiu arrebatar 8 Oscars, incluindo melhor filme?

A) O sucesso do filme é fruto de marketing agressivo.
B) A premiação do filme no Oscar reflete a mudança dos critérios da Academia.
C) É o melhor filme do ano.
D) É o filme que mais entretém dentre os indicados.

Antes de responder à pergunta, vamos ao contexto: o filme em questão é "Quem Quer Ser Um Milionário?", uma produção britânica do diretor Danny Boyle (do cultuado "Trainspotting") rodada em Mumbai, na Índia, ao custo estimado de 15 milhões de dólares (um valor irrisório se comparado aos 15o milhões - 10 vezes mais - gastos na produção de "O Curioso Caso de Benjamin Button", seu principal concorrente no Oscar deste ano).


O filme recebeu no último domingo nada menos que oito Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção, uma quantidade impressionante de prêmios para uma produção independente, inteiramente rodada em câmera digital e com atores desconhecidos do grande público.

Para se ter uma idéia da enorme façanha da produção de Boyle, basta traçarmos um pequeno comparativo com outros ganhadores da Academia, consideradas grandes produções: "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg, conquistou 7 Oscars, a mesma quantidade de "Lawrence da Arábia", de David Lean; tanto "Coração Valente" quanto "Gladiador" arrebataram 5 Oscars cada; e "O Poderoso Chefão" - considerado por muitos o melhor filme de todos os tempos - recebeu apenas 3.

"Quem quer ser Um Milionário?" ainda venceu o Globo de Ouro e o Bafta (O equivalente inglês do Oscar) em diversas categorias, incluindo melhor filme.

Mas como explicar tal fenômeno? De onde será que vem tamanho favoritismo? Será que o filme de Boyle é mesmo tão bom assim?

Vejamos as opções de resposta:

A) O sucesso do filme é fruto de marketing agressivo

Não é bem verdade. O filme de Boyle não foi nem mais, nem menos promovido que os demais filmes em competição. Pelo contrário, seu favoritismo fez com que ele fosse alvo de diversas críticas e a produção do filme chegou a ser acusada de explorar a miséria alheia e pagar mal às crianças indianas que participaram do filme. Tudo isso foi desmentido e cuidadosamente contornado pelos produtores do filme, que fizeram questão de convidar as tais crianças para participarem da cerimônia do Oscar (no final das contas, todos subiram ao palco do Kodak Theater na noite da premiação para celebrar o prêmio).

O filme sequer chegou a ser um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Até a data de divulgação dos indicados ao Oscar "Quem quer Ser Um Milionário?" havia arrecadado pouco mais de 43 milhões de dólares contra mais de 103 milhões arrecados até então por "O Curioso Caso de Benjamin Button", enquanto os blockbusters "Homem de Ferro" e "Batman: O Cavaleiro das Trevas" ultrapassaram a cifra dos 100 milhões de dólares apenas no final de semana de estréia.

B) A premiação do filme no Oscar reflete a mudança dos critérios da Academia

Talvez. Afinal, a cada ano que passa o Oscar vem abrindo cada vez mais espaço para produções independentes e estrangeiras (vide postagem "O Oscar em Tempos de Globalização"), mas isso nunca foi sinônimo de consagração, já que a Academia nunca abriu mão de premiar uma produção genuinamente americana - em geral grandes produções - como forma de reafirmar sua posição como a mais poderosa indústria do cinema mundial (ainda que Bollywood, a indústria indiana de cinema, produza mais filmes por ano).

A exemplo disso, podemos citar o caso de "O Tigre o Dragão". A produção made in china dirigida por Ang Lee, que concorria a 10 Oscars e acabou perdendo o prêmio principal para "Gladiador", mesmo sendo notadamente superior à produção americana.

Outro caso mais recente é o do contundente "Babel", produção dirigida pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, rodada em quatro países diferentes (e, portanto, falado em quatro idiomas) que teve que se contentar com um único Oscar, de melhor trilha sonora, em 2006. O prêmio de melhor filme foi para "Os Infiltrados", de Martin Scorsese.

C) É o melhor filme do ano

Essa é uma afirmação questionável. A história da ascensão social de um menino pobre de uma favela de Mumbai em um programa de televisão comove, mas não chega a ser contundente como "O Leitor", de Stephen Daldry (ou mesmo "Foi Apenas um Sonho", de Sam Mendes, que sequer foi indicado às principais categorias)

O romance entre Jamal, o jovem protagonista do filme, e sua amiga de infância, Latika, é singelo e encanta o público, mas está longe de ser uma grande história de amor. A crítica social, por sua vez, aparece ao longo de todo o filme, apesar de ocupar um segundo plano.

Já no quesito direção - sem desmerecer o ótimo trabalho de Boyle - o filme não chega a ter o preciosismo nem a riqueza de detalhes orquestradas por David Fincher em "O Curioso Caso de Benjamin Button", ou a soberba direção de atores de Stephen Daldry em "O Leitor".

D) É o filme que mais entretém dentre os indicados

Essa talvez seja a resposta mais apropriada. A estética de videoclipe impressa por Boyle no filme empolga, e muito, o espectador, graças a sua edição ágil e fotografia vertiginosa (nestes dois aspectos "Quem quer Ser..." deve muito ao nosso "Cidade de Deus"). Sem contar a própria construção da história, que propõe um jogo ao espectador. Ao ver o filme, nós nos colocamos no lugar de Jamal e participamos com ele do programa de auditório. Impossível não estabelecer empatia e não torcer por ele.

Quer mais? O filme conta ainda com uma trilha sonora eletrizante (talvez a primeira da história que flerta com a música eletrônica a ganhar um Oscar) e, para encerrar, uma apresentação musical para lá de animadora, no melhor estilo Bollywood ("Jai Ho", canção premiada pela Academia)

Diante de tudo isso, fica fácil compreender por que a Academia se rendeu a "Quem Quer Ser Um Milionário?". Afinal, não esqueçamos que entretenimento sempre foi o principal combustível do cinema americano (depois do dinheiro, é claro).

Em um ano de mudança na política mundial, com o começo da era Obama, nada melhor do que um filme com uma mensagem de otimismo para encher as pessoas de esperança (o outro filme, dentre os indicados, capaz de ocupar esse posto talvez fosse "Milk - A Voz da Igualdade", com sua mensagem de inclusão social em defesa dos direitos das minorias)

Os demais concorrentes se voltam mais para o passado. "Frost/Nixon" procura compreender a mente do ex presidente Nixon, "O Curioso Caso..." aproveita para prestar homenagem aos mortos do furacão Katrina (ocorrido na era Bush), e "O Leitor" relembra os fantasmas deixados pelo Holocausto, e está longe de ser uma diversão.

Então, por eliminação, a resposta (ou pergunta) da Academia para este ano só poderia ser mesmo: "Quem Quer Ser Um Milionário?"

Se lembrarmos que o filme custou cerca de 15 milhões de dólares para ser feito e já arrecadou mais de 100 milhões com o reforço das premiações, fica fácil perceber porque Dany Boyle não tem economizado sorrisos por onde quer que passe.


Confira o trailer do filme:


quarta-feira, 19 de março de 2008

O Talentoso Anthony Minghella


O cinema perdeu ontem um dos diretores mais humanistas da contemporaneidade. O talentoso diretor e roteirista inglês, descendente de italianos, Anthony Minghella (vencedor do Oscar, em 1997, pelo épico romântico “O Paciente Inglês”), morreu na madrugada de ontem, aos 54 anos, vítima de uma hemorragia cerebral, durante uma operação para retirada de abscesso do pescoço, em Londres.

Mr. Minghella, que começou escrevendo roteiros para a televisão britânica, teve passagem também pelo teatro e estreou no cinema com o romance fantasma “Truly, Madly, Deeply” (1990), que lhe rendeu logo de primeira o prêmio Bafta de melhor roteiro original e o lançou no mercado cinematográfico.

Em seguida realizou o romance indie “Mr. Wonderful” (1993), estrelado por Matt Dillon, com pouca repercussão. Mas seria em 1996, quando adaptou para as telas de cinema o romance “O Paciente Inglês” (The English Patient), que Minghella atingiria, já no seu terceiro filme, o auge de sua carreira.


Baseado da obra de Michael Ondaatje, este épico anti-belicista, estrelado por Ralph Fiennes, Christin Scott Thomas e Juliette Binoche, é, sem dúvida, o melhor trabalho de Minghella. O filme (ostensivamente subestimado por uma legião de impacientes, ingleses ou não) consiste numa obra primorosa e talvez seja o filme mais genuinamente romântico da história do cinema, com imagens de uma beleza cada vez mais rara e uma história que transpira calor humano.

Aclamado pela crítica, a produção, vencedora de 9 Oscars (incluindo Melhor Filme), rendeu a Minghella, em 1997, o prêmio de melhor diretor, e entrou para a história como o primeiro filme independente (a Miramax se encarregou apenas da distribuição) - e também o primeiro montado em equipamento digital (edição não-linear) - a receber o prêmio máximo da Academia.

O filme se notabilizou ainda por ter possibilitado à atriz francesa Juliette Binoche realizar um de seus melhores trabalhos, consolidando sua ascensão em Hollywood. Foi graças a sua comovente atuação como a sensível enfermeira Hana, que Juliette conquistou não apenas o Oscar de melhor atriz coadjuvante, como também o Urso de Prata de melhor atriz no prestigiado Festival de Berlim.

Juliette Binoche como Hana, em "O Paciente Inglês" (1996)


Já no ano de 1999, Anthony Minghella voltaria a ser elogiado pela crítica, dessa vez pelo ótimo “O Talentoso Ripley” (The Talented Mr. Ripley), estrelado por Matt Damon, Jude Law e Gwyneth Paltrow, e contando ainda com nomes como Cate Blanchett e Phillip Seymour Hoffman, em franca ascensão.

Ao adaptar a obra da escritora americana Patricia Highsmith, Minghella foi além da trama policial e acabou criando uma obra virtuosa e inteligente sobre a recusa da sexualidade por parte de seu atormentado personagem-título, em meio a deslumbrantes paisagens italianas, a vitalidade do jazz e a melancolia do blues.

Sobre o filme, Minghella diz: "Imagino que todos saibamos como é sentir-se excluído. Nós talvez até tenhamos fingido ser alguém que não somos para sermos aceitos ou bem-sucedidos. Essa é uma das coisas que nos fazem seres humanos, e a percepção disto é que nos faz ver Ripley como tal. Essa ligação desconcertante com Tom Ripley, um dos personagens mais incríveis da ficção, e a ansiedade gerada pela familiaridade, pelo menos em pesadelo, do que acontece com ele, me moveu a fazer este filme".

"O Talentoso Ripley" foi indicado a 5 Oscars (incluindo melhor roteiro adaptado para Minghella) e colocou Jude Law definitivamente entre os atores mais talentosos de sua geração.


Jude Law e Matt Damon em "O Talentoso Ripley" (1999)


Em 2003, Minghella transpôs para as telas mais uma adaptação literária: “Cold Mountain”, baseado na obra de Charles Frazier, um romance que tem como pano de fundo a guerra civil norte-americana. O filme teve uma recepção bastante morna pela crítica (apesar dos esforços da poderosa Miramax em tentar vendê-lo como um novo “E o Vento Levou”) e acabou deixando Minghella, e seu filme, fora da disputa ao Oscar.

O fato é que, apesar de sua inegável excelência técnica; e da quantidade expressiva de atores de peso como Nicole Kidman, Jude Law, Renée Zellweger, Phillip Seymour Hoffman, Donald Sutherland e Natalie Portman; a história de amor retratada no filme não chega a convencer plenamente (muitos apontaram a falta de química entre Nicole Kidman e Jude Law como responsável) e está longe de ser tão bem desenvolvida quanto o romance entre os personagens de Ralph Fiennes e Christin Scott Thomas em “O Paciente Inglês”.

Ainda assim, “Cold Mountain” recebeu 7 indicações ao Oscar (a maioria delas técnicas) e consagrou a admirável atuação de Renée Zellweger como melhor do ano na categoria de atriz coadjuvante.


Renée Zellweger e Nicole Kidman em "Cold Mountain" (2003)


Seu último filme nos cinemas acabou sendo “Invasão de Domicílio” (Breaking and Entering, 2006), que reune dois de seus mais queridos atores do passado, Jude Law e Juliette Binoche, numa trama bastante modesta (dessa vez com roteiro original) para quem já estava habituado aos dramas épicos e grandes adaptações literárias.

Na última década exerceu também a função de produtor executivo em produções como “Iris” (2001), “O Americano Tranquilo” (2002), “A Intérprete” (2005) e o recém indicado ao Oscar “Conduta de Risco” (2007); além de atuar como presidente do Instituto Britânico de Filmes defendendo o fomento à industria britânica de cinema.

No ano anterior, faria ainda sua única aparição como ator num filme, como um entrevistador, no premiado “Desejo e Reparação” (2007).

O diretor acabou de finalizar o episódio piloto da série de televisão “Agência Nº1 de Mulheres Detetives”, cuja estréia está prevista para o próximo domingo no canal BBC. Ele morreu enquanto terminava de realizar um dos curtas do projeto coletivo “New York, I Love You”, em homenagem à big apple, e pretendia realizar este ano mais uma adaptação literária, “The Ninth Life of Luis Drax”, baseado na obra de Liz Jensen.

Dentre as parcerias que Anthony Minghella estabeleceu ao longo de sua carreira, destacam-se as colaborações com o produtor e também diretor Sidney Pollack, o montador Walter Murch, o fotógrafo John Seale, e, em especial (Minghella prezava muito a música em seus filmes), com o músico Gabriel Yared, cuja parceria com o diretor lhe rendeu suas três indicações ao Oscar e o prêmio pela encantadora trilha de “O Paciente Inglês”.


Confira o trailer de "O Paciente Inglês":