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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Ganhador do Oscar?



Como uma produção modesta, rodada na Índia com câmera digital e atores desconhecidos, conseguiu arrebatar 8 Oscars, incluindo melhor filme?

A) O sucesso do filme é fruto de marketing agressivo.
B) A premiação do filme no Oscar reflete a mudança dos critérios da Academia.
C) É o melhor filme do ano.
D) É o filme que mais entretém dentre os indicados.

Antes de responder à pergunta, vamos ao contexto: o filme em questão é "Quem Quer Ser Um Milionário?", uma produção britânica do diretor Danny Boyle (do cultuado "Trainspotting") rodada em Mumbai, na Índia, ao custo estimado de 15 milhões de dólares (um valor irrisório se comparado aos 15o milhões - 10 vezes mais - gastos na produção de "O Curioso Caso de Benjamin Button", seu principal concorrente no Oscar deste ano).


O filme recebeu no último domingo nada menos que oito Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção, uma quantidade impressionante de prêmios para uma produção independente, inteiramente rodada em câmera digital e com atores desconhecidos do grande público.

Para se ter uma idéia da enorme façanha da produção de Boyle, basta traçarmos um pequeno comparativo com outros ganhadores da Academia, consideradas grandes produções: "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg, conquistou 7 Oscars, a mesma quantidade de "Lawrence da Arábia", de David Lean; tanto "Coração Valente" quanto "Gladiador" arrebataram 5 Oscars cada; e "O Poderoso Chefão" - considerado por muitos o melhor filme de todos os tempos - recebeu apenas 3.

"Quem quer ser Um Milionário?" ainda venceu o Globo de Ouro e o Bafta (O equivalente inglês do Oscar) em diversas categorias, incluindo melhor filme.

Mas como explicar tal fenômeno? De onde será que vem tamanho favoritismo? Será que o filme de Boyle é mesmo tão bom assim?

Vejamos as opções de resposta:

A) O sucesso do filme é fruto de marketing agressivo

Não é bem verdade. O filme de Boyle não foi nem mais, nem menos promovido que os demais filmes em competição. Pelo contrário, seu favoritismo fez com que ele fosse alvo de diversas críticas e a produção do filme chegou a ser acusada de explorar a miséria alheia e pagar mal às crianças indianas que participaram do filme. Tudo isso foi desmentido e cuidadosamente contornado pelos produtores do filme, que fizeram questão de convidar as tais crianças para participarem da cerimônia do Oscar (no final das contas, todos subiram ao palco do Kodak Theater na noite da premiação para celebrar o prêmio).

O filme sequer chegou a ser um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Até a data de divulgação dos indicados ao Oscar "Quem quer Ser Um Milionário?" havia arrecadado pouco mais de 43 milhões de dólares contra mais de 103 milhões arrecados até então por "O Curioso Caso de Benjamin Button", enquanto os blockbusters "Homem de Ferro" e "Batman: O Cavaleiro das Trevas" ultrapassaram a cifra dos 100 milhões de dólares apenas no final de semana de estréia.

B) A premiação do filme no Oscar reflete a mudança dos critérios da Academia

Talvez. Afinal, a cada ano que passa o Oscar vem abrindo cada vez mais espaço para produções independentes e estrangeiras (vide postagem "O Oscar em Tempos de Globalização"), mas isso nunca foi sinônimo de consagração, já que a Academia nunca abriu mão de premiar uma produção genuinamente americana - em geral grandes produções - como forma de reafirmar sua posição como a mais poderosa indústria do cinema mundial (ainda que Bollywood, a indústria indiana de cinema, produza mais filmes por ano).

A exemplo disso, podemos citar o caso de "O Tigre o Dragão". A produção made in china dirigida por Ang Lee, que concorria a 10 Oscars e acabou perdendo o prêmio principal para "Gladiador", mesmo sendo notadamente superior à produção americana.

Outro caso mais recente é o do contundente "Babel", produção dirigida pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, rodada em quatro países diferentes (e, portanto, falado em quatro idiomas) que teve que se contentar com um único Oscar, de melhor trilha sonora, em 2006. O prêmio de melhor filme foi para "Os Infiltrados", de Martin Scorsese.

C) É o melhor filme do ano

Essa é uma afirmação questionável. A história da ascensão social de um menino pobre de uma favela de Mumbai em um programa de televisão comove, mas não chega a ser contundente como "O Leitor", de Stephen Daldry (ou mesmo "Foi Apenas um Sonho", de Sam Mendes, que sequer foi indicado às principais categorias)

O romance entre Jamal, o jovem protagonista do filme, e sua amiga de infância, Latika, é singelo e encanta o público, mas está longe de ser uma grande história de amor. A crítica social, por sua vez, aparece ao longo de todo o filme, apesar de ocupar um segundo plano.

Já no quesito direção - sem desmerecer o ótimo trabalho de Boyle - o filme não chega a ter o preciosismo nem a riqueza de detalhes orquestradas por David Fincher em "O Curioso Caso de Benjamin Button", ou a soberba direção de atores de Stephen Daldry em "O Leitor".

D) É o filme que mais entretém dentre os indicados

Essa talvez seja a resposta mais apropriada. A estética de videoclipe impressa por Boyle no filme empolga, e muito, o espectador, graças a sua edição ágil e fotografia vertiginosa (nestes dois aspectos "Quem quer Ser..." deve muito ao nosso "Cidade de Deus"). Sem contar a própria construção da história, que propõe um jogo ao espectador. Ao ver o filme, nós nos colocamos no lugar de Jamal e participamos com ele do programa de auditório. Impossível não estabelecer empatia e não torcer por ele.

Quer mais? O filme conta ainda com uma trilha sonora eletrizante (talvez a primeira da história que flerta com a música eletrônica a ganhar um Oscar) e, para encerrar, uma apresentação musical para lá de animadora, no melhor estilo Bollywood ("Jai Ho", canção premiada pela Academia)

Diante de tudo isso, fica fácil compreender por que a Academia se rendeu a "Quem Quer Ser Um Milionário?". Afinal, não esqueçamos que entretenimento sempre foi o principal combustível do cinema americano (depois do dinheiro, é claro).

Em um ano de mudança na política mundial, com o começo da era Obama, nada melhor do que um filme com uma mensagem de otimismo para encher as pessoas de esperança (o outro filme, dentre os indicados, capaz de ocupar esse posto talvez fosse "Milk - A Voz da Igualdade", com sua mensagem de inclusão social em defesa dos direitos das minorias)

Os demais concorrentes se voltam mais para o passado. "Frost/Nixon" procura compreender a mente do ex presidente Nixon, "O Curioso Caso..." aproveita para prestar homenagem aos mortos do furacão Katrina (ocorrido na era Bush), e "O Leitor" relembra os fantasmas deixados pelo Holocausto, e está longe de ser uma diversão.

Então, por eliminação, a resposta (ou pergunta) da Academia para este ano só poderia ser mesmo: "Quem Quer Ser Um Milionário?"

Se lembrarmos que o filme custou cerca de 15 milhões de dólares para ser feito e já arrecadou mais de 100 milhões com o reforço das premiações, fica fácil perceber porque Dany Boyle não tem economizado sorrisos por onde quer que passe.


Confira o trailer do filme:


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Sonho Acabou


Dez anos atrás, o então estreante diretor Sam Mendes conquistou platéias do mundo inteiro (e uma enxurrada de prêmios) com a contundente história da família Burnham em "Beleza Americana". O filme, com seu humor corrosivo próprio de um narrador defunto (que o diga o velho Brás Cubas), divertia e emocionava a medida em que ia arremessando pedras no já falido "american way of life".

Agora, Mendes lança um novo petardo contra o sonho americano, desta vez contando a história dos Whellers, um casal dividido entre a vida que poderiam ter e a vida que apenas levam em "Foi Apenas um Sonho".

Baseado em um célebre romance de Richard Yates, o filme narra a história de Frank e April Wheller, um casal de classe média da década de 50, que vive em uma grande casa do subúrbio norte-americano e tem dois filhos pequenos. Para a vizinhança, eles são os admiráveis Whellers, o jovem casal que vive o sonho americano em perfeita harmonia. Ela seria a perfeita dona de casa, ele o marido exemplar. Isto para os olhos da vizinhança...


Entre quatro paredes, no entanto, a história é bem diferente. Quando os dois se conheceram, ela sonhava em ser atriz; chegou a tentar, mas sem nenhum êxito. Ele nunca descobriu sua verdadeira vocação, e se dedica a um trabalho de escritório, que ele desempenha mecanicamente, sem muita satisfação, pois não se sente realizado. Agora os dois vivem frustrados e infelizes, e trocam acusações a todo o momento.

A mediocridade da vida cotidiana em que ambos encontram-se imersos, só faz reforçar a tese de que o sonho capitalista norte-americano não apenas faliu, mas definitivamente acabou. Por mais que ambos sejam proprietários de uma senhora casa, donos de um magnífico carro, e tenham dois belos filhos; como diria o título brasileiro de um célebre clássico de Frank Capra: "A Felicidade Não se Compra".

O que fazer então na tentativa de serem felizes? Ela, que é a mais insatisfeita dos dois, propõe uma revolução em suas vidas (o título original do filme é "Revolutionary Road", "Estrada da Revolução" em tradução literal, e refere-se ao nome da rua em que vivem). A proposta de April é a seguinte: se mudarem para Paris e recomeçarem uma nova vida, em que ela trabalharia temporariamente como secretária e seria o sustento da família, enquanto ele teria tempo para descobrir sua verdadeira vocação e passaria a dedicar-se àquilo que realmente gosta.


Frank, que em primeira instância mostra-se duvidoso, acaba deixando-se persuadir pelo entusiasmo de April e os dois começam a fazer planos, mesmo a despeito dos olhares críticos dos vizinhos e colegas de trabalho de Frank, que vêem o plano do casal como uma atitude infantil e meramente escapista.

Mas entre a beleza do sonho idealizado e o amargo sabor da realidade existe uma linha tênue, e o casal vai vendo aos poucos seus planos de mudança desmoronarem, dando margem a uma nova, e ainda mais intensa, rodada de acusações.

O filme conta com vigorosas atuações de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, o par romântico que arrebatou as bilheterias do mundo inteiro em "Titanic", e onze anos depois voltam a contracenar.

O filme de Sam Mendes, no entanto, não tem nada de romântico. Apesar de em alguns breves momentos o casal trocar demonstrações de afeto, o que dá o tom do filme mesmo é o confronto. Quem for assistir ao filme esperando um novo romance entre os dois protagonistas, é melhor esquecer. Desta vez, o casal já foi atingido pelo iceberg desde o começo e o filme está mais para "Cenas de um Casamento", do mestre Ingmar Bergman (inclusive pelo ritmo lento e tom melancólico).

Também são raros os momentos de descontração do filme. Os confrontos entre Frank e April, diferente das discussões entre Lester e Carolyn (Kevin Spacey e Annette Bening) em "Beleza Americana", são duros e não têm qualquer teor de comicidade, chegando a ser perturbadores em alguns momentos.

Mas, mesmo sem atingir o nível de excelência de "Beleza Americana", "Foi Apenas um Sonho" não deixa de ser uma obra pungente, dessas que tendem a melhorar a cada nova apreciação.

Tanto Kate Winslet quanto Leonardo DiCaprio, demonstram grande amadurecimento dramático e vivem momentos memoráveis. Ela leva, todavia, uma ligeira vantagem, não apenas por sua atuação ser de fato arrebatadora, mas por sua personagem ser o pivô dos principais acontecimentos do filme; além da história ser em maior parte contada sob seu ponto de vista. (uma curiosidade que faz toda a diferença: Kate é casada na vida real com o diretor Sam Mendes)

Os diálogos também são afiados, e ajudam a definir seus personagens. Numa das falas mais memoráveis do filme, April discorre sobre a verdade (Frank está transando com uma colega de trabalho, mas April não sabe disso). Ela diz para ele, insistindo para que a conversa seja franca, já que, segundo ela, ambos sempre viveram com base na verdade: "ninguém esquece a verdade Frank, as pessoas apenas aprendem a mentir melhor".

E no fundo, a pretensa felicidade do casal não passa de uma grande mentira. Não por acaso, duas das melhoras cenas do filme acontecem quando os dois recebem para um almoço um casal de amigos mais velhos e seu filho de meia idade, um PhD em matemática que sofre de problemas mentais (Michael Shannon, justamente indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante).

Não obstante sua "loucura", o professor de matemática é o único capaz de enxergar a tristeza do casal sob a aparente felicidade, e a urgente necessidade de mudança dos Whellers. É ele quem diz, em um dos seus surtos de extrema sinceridade, uma das frases mais emblemáticas do filme: "muitas pessoas vivem no vazio, mas é preciso ter força para enxergar a falta de esperança".

Ele não tem papas na língua e, nas duas cenas citadas, destila provocações desconcertantes e inflamáveis para o casal, que vive no vazio, mas está sempre adiando a possibilidade de encarar a falta de esperança em prol de uma vida melhor.

O filme, que parecia ter tudo para ser um dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, apesar de ter sido indicado a 4 Globos de ouro, incluindo melhor filme, direção, e ator - e rendido a Kate Winslet o prêmio de melhor atriz - acabou recebendo apenas três indicações da Academia (melhor direção de arte, figurino e ator coadjuvante).

Assim como a esperança dos Whellers em mudar de vida, a expectativa gerada em torno da consagração do novo filme do oscarizado Mendes foi justamente isso, apenas um sonho.


Confira o trailer do filme:


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sr. e Sra. Oscar


O casal mais badalado da Hollywood contemporânea, Brad Pitt e Angelina Jolie (de Sr. e Sra. Smith), tem muito que comemorar - e eu não estou me referindo aos 6 filhos do casal. Os dois estão vivendo um momento ímpar em suas carreiras e, apesar de já terem participado da cerimônia do Oscar anteriormente (ele já havia concorrido como melhor ator coadjuvante por "Os 12 Macacos", e ela já ganhou o prêmio de coadjuvante por "Garota, Interrompida") irão disputar pela primeira vez este ano o prêmio nas categorias principais.

A união parece ter dado certo. Desde que começaram a andar juntos, Angelina e Brad têm feito escolhas mais maduras em suas carreiras e encarado personagens cada vez mais desafiadores. Ele, por exemplo, demonstrou bastante competência em filmes como "Babel" e "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" (este último lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza). Ela, por sua vez, foi bastante elogiada por sua atuação no drama "O Preço da Coragem", pelo qual concorreu pela primeira vez ao Globo de Ouro de melhor atriz na categoria principal.

Agora ambos têm, pela primeira vez (e numa mesma noite), a chance de serem agraciados com o maior prêmio do cinema americano. Ela por sua tocante atuação no drama "A Troca", do veterano Clint Eastwood; ele por encarnar o personagem título de "O Curioso Caso de Benjamin Button", drama fantástico, de proporções épicas, do diretor David Fincher.



A Troca (Changeling)


No filme "A Troca", drama de época baseado em fato verídico, Angelina vive a personagem Christine Collins. Abandonada pelo marido, Christine mora em uma casa do subúrbio de Los Angeles com seu filho Walter, de apenas nove anos, que ela cria com muito zelo e dedicação. Supervisora de uma companhia telefônica, um dia Christine volta para casa e se dá conta de que seu filho desapareceu.

Angustiada, ela contacta imediatamente a polícia, na esperança de que eles encontrem alguma pista do paradeiro de seu filho. O Departamento de Polícia de Los Angeles, no entanto, alvo de severas críticas de corrupção, negligência e abuso de poder - sobretudo por parte do reverendo Gustav (John Malkovich, em boa atuação) - a fim de melhorar sua imagem perante a opinião pública, termina devolvendo a Christine uma criança que não é seu filho.

Para a impressa e leitores em geral, a polícia cumpriu seu dever. Mas para Christine, que não admite a possibilidade do término das buscas, inicia-se aí uma verdadeira disputa de poder, na qual ela terá que enfrentar a ameaçadora polícia local no intuito de reaver seu filho desaparecido.


Angelina Jolie em "A Troca"

A história se desenvolve com grande habilidade. O roteiro é muito bem costurado, mantendo a expectativa pelo que está por vir a todo o momento, e nos surpreendendo por diversas vezes. O filme, que participou da mostra competitiva no Festival de Cannes no ano passado, é extremamente bem acabado, e conta com a classe e a sofisticação próprias de um filme do mestre do cinema clássico, Clint Eastwood (que também compôs a trilha do filme). Direção de arte, figurino e fotografia formam uma tríade impecável, retratando com grande precisão e riqueza de detalhes a bucólica Los Angeles das décadas de 20 e 30.

Já Angelina Jolie tem no filme um dos melhores desempenhos de sua carreira. Sua Christine, quase sempre sob a proteção de um chapéu, é frágil, sensível e elegante. Com seus gestos contidos, destoa muito das personagens de ação a que estamos habituados a ver Angelina atuando. Chega a ser quase impossível não ter empatia por sua personagem e, muito menos, não ficar indignado por todo o martírio a que ela é submetida.

Vale destacar ainda a atuação do desconhecido ator Jason Butler Harner, que impressiona na pele de um esquizofrênico assassino (injustamente ignorado pela crítica e premiações). Sua participação no filme, apesar de ser um tanto breve, acrescenta grande intensidade dramática à trama. Sua interpretação chega a lembrar a do célebre ator Robert Mitchum (que encarnou temíveis personagens em clássicos como "Círculo do Medo" e "O Mensageiro do Diabo)

Além do prêmio de Melhor Atriz para Angelina Jolie, o filme concorre também aos Oscars de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.

Confira o trailer do filme:





O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button)

A parceria entre o diretor David Fincher e o ator Brad Pitt já rendeu os ótimos "Seven - Os Sete Crimes Capitais" e "Clube da Luta". A nova empreitada de ambos, "O Curioso Caso de Benjamin Button" é um filme fantástico, de proporções épicas, meticulosamente conduzido por Fincher em todos os seus ricos e preciosos detalhes.

O diretor, aclamado pelo grande público, mas constantemente ignorado pelos júris das premiações, recebe finalmente o seu merecido reconhecimento. Indicado para o Oscar na categoria de melhor direção, seu filme é o recordista de indicações na edição deste ano, somando nada menos do que 13 indicações (apenas uma a menos que os recordistas "Ben Hur" e "Titanic")

Toda essa notável aclamação não é para menos. Seu novo trabalho é impecável, uma pérola de filme em que cada elemento prima pela excelência. A história, baseada na obra homônima de F. Scott Fitzgerald, não é apenas curiosa, como sugere o título, mas extremamente bem contada, e perpassa quase um século de existência humana, avançando e retornando no tempo com enorme destreza (neste sentido, lembra "Forrest Gump - O Contador de Histórias).

A reconstituição de época, com a fotografia, direção de arte e figurinos, também não é nada menos que excepcional. A trilha sonora, composta pelo francês Alexandre Desplat, assim como a maioria das trilhas compostas por ele, é ao mesmo tempo elegante, instigante e mágica. E a maquiagem (talvez o elemento mais notável do filme e o único prêmio que parece garantido) é simplesmente sensacional. É por meio da maquiagem (e uma boa dose de efeitos visuaus) que eles conseguem não apenas fazer com que Brad Pitt tenha a aparência de um idoso de 80 anos, como, surpreendentemente, rejuvenecê-lo, a ponto de fazê-lo parecer um adolescente outra vez.

Brad Pitt em "O Curioso Caso de Benjamin Button"

Mas afinal, o que há de tão curioso no filme que o faz tão especial? Falemos da história: Brad Pitt interpreta Benjamin Button, uma pessoa portadora de um enigmático distúrbio biológico que o faz nascer com a aparência de um velho de 80 anos. À medida em que o velho bebê vai crescendo, ele vai rejuvenescendo, contrariando todas as previsões de que o pequeno Button morreria precocemente.

Sua fascinante história começa no final da primeira guerra (quando Button nasce) e segue até quase os dias de hoje - a história é narrada por uma paciente moribunda, deitada no leito de um hospital, no ano de 2005, quando o terrível furacão Katrina devastou a cidade de New Orleans (o filme presta, aliás, uma bela homenagem aos mortos do incidente).

Ao longo de sua existência, bem como todos nós, Benjamin Button conhece uma grande diversidade de pessoas. Mas enquanto os outros envelhecem e morrem, Benjamin sente-se cada vez mais revigorado e tem que aprender a lidar com a infortúnio de ver os entes queridos morrerem enquanto ele sobrevive, fruto da sua condição (neste sentido, a história nos remete a um outro filme: "À Espera de Um Milagre").

De todas as pessoas que Benjamin conhece ao longo de sua vida, as duas mais marcantes, à exceção de sua mãe adotiva, são sem dúvida, seus dois amores. A primeira delas, uma mulher casada e solitária (bela atuação de Tilda Swinton) que Button conhece enquanto vive um tempo na Rússia. A segunda, seu grande amor Daisy (a sempre ótima Cate Blanchett, que já havia contracenado com Pitt em "Babel"), que Benjamin conhece quando criança, apaixona-se à primeira vista, e que o acompanhará por toda sua vida.

Brad Pitt demonstra bastante maturidade dramática e repete em "O Curioso Caso..." uma linha de atuação mais contida que vem dando certo em seus últimos filmes, como "Babel" e "O Assassinato de Jesse James...". É bem verdade que a maquiagem ajuda, e muito, a composição do personagem. Mas justiça seja feita, há um empenho grande por parte de Brad, tanto em termos de trabalho de voz quanto corporal, para conferir verossimilhança ao personagem em cada estágio de sua vida.

"O Curioso Caso de Benjamin Button" é um filme bastante poético, que dá margem a várias reflexões filosóficas a respeito da vida. Temas como o envelhecimento, a morte e o amor são recorrentes no filme. Mas é o tempo o principal objeto de análise do filme (é emblemática, por exemplo, a presença de um relógio cujo ponteiro gira em sentido anti-horário). Por falar em tempo, se existe uma ressalva que merece ser feita em relação a obra de David Fincher, talvez seja quanto a sua duração. O filme, que tem proporções épicas, é um tanto longo demais, assim como os já citados "Forrest Gump" e "A Espera de Um Milagre". Mas nada que diminua o seu enorme brilhantismo. Afinal, ao assiti-lo, tudo que queremos saber é onde essa fantástica história vai parar, não importa o quanto tenhamos que esperar pelos ponteiros do relógio.

Confira o trailer do filme:


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Duas Vezes Winslet



Ser indicada duas vezes para uma mesma premiação já deixou de ser novidade para uma atriz em Hollywood, tanto no Globo de Ouro quanto no Oscar.

Lembremos, por exemplo, da brilhante atriz Julianne Moore, que na edição do Oscar de 2003 concorreu tanto ao prêmio de melhor atriz principal quanto ao de atriz coadjuvante, por suas comoventes atuações nos dramas "Longe do Paraíso" e "As Horas", respectivamente; mas que, lamentavelmente, acabou não ganhando nenhum.

Outras, por sua vez, tiveram um pouco mais de sorte, e foram contempladas com pelo menos um dos dois prêmios a que concorria, a exemplo de Meryl Streep, que naquele mesmo ano, concorria aos Globos de Ouro de atriz e atriz coadjuvante por "As Horas" e "Adaptação", respectivamente (este último lhe valeu o prêmio).

A conquista de ambos os prêmios, no entanto, é um fato histórico, até então sem precedentes na história das premiações cinematográficas.


Kate Winslet em "The Reader"


A proeza coube à talentosa atriz britânica Kate Winslet, que na mais recente edição do Globo de Ouro, ocorrida no último domingo, angariou ambos os prêmios numa só noite, melhor atriz coadjuvante por "The Reader" e melhor atriz por "Apenas Um Sonho ", ambos os filmes inéditos no Brasil.

A bela e talentosa atriz de "Titanic", "Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças" e "Pecados Íntimos", dentre outros, vinha fazendo campanha para ser indicada por ambos os filmes ao passo que acumulava críticas bastante elogiosas pelos dois trabalhos.

Tudo parecia indicar que este seria mesmo o ano de Kate Winslet, afinal de contas são dois papéis de peso e grande carga dramática: o de uma alemã que esconde um passado secreto em "The Reader", e o de uma esposa que enfrenta problemas no matrimônio em "Apenas Um Sonho".

O difícil parecia escolher por qual filme Kate deveria concorrer como melhor atriz, já que, segundo a crítica especializada, ela tem um desempenho estupendo em ambos os filmes, e não poderia concorrer com si mesma numa só categoria.

Kate Winslet em "Apenas um Sonho"


A solução partiu da própria Kate, que não hesitou em dizer que preferia ser indicada por "Apenas um Sonho", já que o filme é dirigido por seu marido, o diretor Sam Mendes (Beleza Americana) e retoma a parceria em cena com seu antigo par romântico, Leonardo di Caprio (Titanic).

Sendo assim, sua atuação em "The Reader", do diretor Stephen Daldry (As Horas), acabou sendo submetida à categoria de atriz coadjuvante, o que gerou certa insatisfação por parte da crítica que defendia que ela era protagonista do filme e não coadjuvante.

Controvérsias à parte, o fato é que a estratégia deu certo e a atriz, que já havia concorrido a cinco Globos de Ouro, mas nunca havia levado nenhum pra casa, acabou ficando com dois numa só noite!

Nem ela mesma parecia acreditar. No primeiro discurso de agradecimento, pediu desculpas pelo embaraço dizendo: "eu tenho o hábito de não ganhar". Já no segundo, perdeu a fala, esqueceu o nome de uma das concorrentes - Angelina Jolie - e logo depois, na coletiva de impressa, afirmou que tinha certeza de que Anne Hathaway levaria o prêmio)

A pergunta que fica é: será que foi merecido? Afinal de contas, Kate desbancou numa só noite outras oito atrizes de peso. A resposta: muito provavelmente, sim. Kate Winslet já mostrou que tem poder de fogo para encarnar com competência os mais diversos papéis e vem se consagrando como uma das atrizes mais talentosas de sua geração.

Agora é só aguardar as estréias no Brasil de "The Reader" e "Apenas um Sonho" para conferirmos suas premiadas atuações, bem como a cerimônia do Oscar, no próximo mês, para ver se ela irá repetir a proeza. Afinal, quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?

Confira abaixo os discursos de agradecimento de Kate Winslet:





segunda-feira, 10 de março de 2008

Ópera de Sangue



Histórias de vingança são tão antigas quanto a própria história da humanidade. Na sétima arte não poderia ser diferente, e volta e meia o velho personagem com sede de vingança dá o ar de sua graça (ou seria desgraça?) nas telas de cinema.

Em “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Estados Unidos, 2007), o mais novo filme do diretor Tim Burton (Ed Wood), Johnny Depp (em mais um de seus personagens esquisitos) troca as tesouras do já clássico "Edward Mãos de Tesoura" (1990) pelas navalhas, ao encarnar Sweeney Todd, um funesto barbeiro que retorna a Londres após 15 anos de reclusão em que esteve encarcerado vítima de uma falsa acusação.

Naquela época, Sweeney era Benjamin Barker, um homem comum que vivia feliz ao lado de sua bela mulher Lucy, até ser condenado injustamente pelo ganancioso juiz Turpin (Alan Rickman), que a cobiçava.

Agora, transformado num homem sombrio e amargurado, tudo que Sweeney quer é se vingar dos responsáveis pelo seu infortúnio, em particular, o Juiz Turpin, que mantém refém a filha adolescente de Todd.




Sweeney vai até a velha casa na Rua Fleet que abrigava sua antiga barbearia e lá encontra a Sra. Lovett (Helena Bohma Carter), uma melancólica viúva empenhada em fabricar as piores tortas de Londres, na fétida torteria que funciona no térreo do soturno casarão.

Sweeney volta a trabalhar como barbeiro no andar de cima, e com auxilio da Sra. Lovett, que nutre por ele grande admiração, começa a por em prática seus planos de vingança.

Mas enquanto a oportunidade certa não chega, Sweeney vai praticando suas habilidades, degolando um a um todos os seus clientes numa sucessão de imagens sangrentas. Mas o que fazer com os corpos das vítimas? Eis aí o aspecto, digamos, mais “saboroso” da trama (e também o mais macabro, se lembrarmos que a história realmente ocorreu na antiga Londres).




Baseado num espetáculo da Broadway, o filme (vencedor do Globo de Ouro de Melhor Musical ou Comédia) é um misto de musical e terror, e faz bom uso dos ingredientes desses dois gêneros, aparentemente tão díspares, com direito ao requinte técnico habitual de mais uma obra da grife Tim Burton.

A direção de arte do filme consiste num espetáculo à parte, recriando com maestria os cenários de uma velha e cinzenta Londres do século XIX, em grande parte através de cenários reais, mas também com o auxílio da computação gráfica em seqüências que lembram bastante a recriação do boêmio e decadente bairro de Montmartre, em Paris, do musical Moulin Rouge! (2001).

O mérito é do italiano Dante Ferretti - antigo colaborador de cineastas como Federico Fellini (E La Nave Va) e Martin Scorsese (O Aviador) - que com seu primoroso trabalho em “Sweeney Todd”, acaba de conquistar seu segundo Oscar.

No que diz respeito ao elenco, Johnny Depp canta e representa com a mesma desenvoltura com que seu personagem empunha a navalha e executa suas vítimas. Já Helena Boham Carter (que é casada com o diretor e quase sempre é presenteada com uma personagem que parece ter sido escrita especialmente para ela) tem também uma atuação notável na pálida pele, de aparência quase cadavérica, da Sra. Lovett.



Não se trata, no entanto, de um grande filme (nem sequer é o melhor de Tim Burton), apesar das pretensões operísticas e do desenlace da estória nos remeter às clássicas tragédias gregas. Não existem canções inesquecíveis (estas cumprem uma função prioritariamente narrativa) e a trama é um tanto quanto previsível, deixando algumas perguntas sem resposta, como qual foi a acusação que fez Sweeney Tood ser preso, ou que fim levou dois dos personagens secundários.

O filme resulta, porém, num bom entretenimento e consiste, sem dúvida, num prato cheio (regado a muito sangue) para aqueles que têm estômago forte e não resistem ao delicioso sabor da vingança.


Confira o trailer do filme:


sábado, 8 de março de 2008

Um Hino às Mulheres


Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, e a todas as mulheres, ofereço-lhes um trecho do filme "Piaf - Um Hino ao Amor" (França, 2007), cinebiografia dessa mulher extraordinária, que foi a cantora Edith Piaf, em interpretação magistral da talentosa (e agora multipremiada) atriz francesa Marion Cotillard.

Para aqueles que ainda não assistiram a esse magnífico filme - que é um verdadeiro ode ao amor, à arte e à vida - sugiro que aproveitem seu merecido retorno às telas de cinema. (O filme já se encontra disponível também nas locadoras).

Com vocês, Edith Piaf:


segunda-feira, 3 de março de 2008

O Oscar em tempos de globalização


O Oscar do ano passado foi marcado pela expressiva participação dos hispano-descendentes, em especial os mexicanos, que dominaram as indicações, e consolidou a ascensão em Hollywood dos três amigos cineastas, compatriotas mexicanos, Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón, representados na noite da premiação por seus mais recentes filmes (o contundente “Babel”, o fantástico “O Labirinto do Fauno” e o virtuoso “Filhos da Esperança”, respectivamente)

A cerimônia deste ano foi ainda mais adiante e atravessou o oceano. Numa premiação que parecia preparada a meses de antecedência para consagrar uma das duplas mais criativas do cinema americano (os irreverentes irmãos Joel e Ethan Coen, do premiado “Onde os Fracos Não Têm Vez”), foram os europeus que roubaram a cena.

A noite que celebrava os 80 anos do mais famoso prêmio do cinema consagrou quatro atores nascidos fora dos Estados Unidos, um feito que não se repetia desde a cerimônia de 1965, quando os ingleses Julie Andrews, Rex Harrison e Peter Ustinov; e a russa Lila Kedrova, foram eleitos vencedores.

Dentre os eleitos deste ano, dois são ingleses: Daniel Day-Lewis (melhor ator por “Sangue Negro”) e Tilda Swinton (melhor atriz coadjuvante por “Conduta de Risco”). A francesa Marion Cotillard (“Piaf – Um Hino ao Amor”) foi a segunda atriz estrangeira a receber a estatueta por uma atuação em outro idioma que não o inglês (a primeira foi a italiana Sophia Loren, em 1962, por sua atuação em “Duas Mulheres”, de Vittorio de Sica). Já Javier Bardem entrou para a história como o primeiro ator espanhol a receber um prêmio da Academia.

Também boa parte dos prêmios técnicos foi para terras bem distantes de Hollywood. Dario Marianelli (vencedor do prêmio de melhor Trilha Sonora Original por “Desejo e Reparação”) é italiano; Didier Lavergne e Jan Archibald (melhor maquiagem por “Piaf – Um Hino ao Amor”) são franceses; Dante Ferreti (melhor direção de arte por “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”) também é italiano; e os músicos Glen Hansard e Markéta Irglová (melhor canção pelo filme “Once”) são irlandês e tcheca, respectivamente.



Todo esse reconhecimento multinacional é reflexo de novos tempos em Hollywood, onde cada vez mais estrangeiros, dos mais diversos ramos, são requisitados para trabalhar em produções americanas e co-produções internacionais, funcionando como um sopro de renovação em face a um certo desgaste em que se encontra a milionária indústria norte-americana de cinema.

O próprio Brasil tem exportado talentos como os diretores Walter Salles (Diários de Motocicleta), Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel) e Carlos Saldanha (A Era do Gelo); os atores Fernanda Montenegro (O Amor nos Tempos do Cólera), Rodrigo Santoro (300) e Alice Braga (Eu Sou a Lenda); além de inúmeros técnicos como os diretores de fotografia Affonso Beato (A Rainha) e César Charlone (O Jardineiro Fiel), e o compositor de trilhas Antonio Pinto (O Amor nos Tempos do Cólera).

O fato é que o Oscar, que sempre foi tido como um prêmio do “cinemão” americano, começa a ganhar contornos de premiação internacional, dando, a cada ano que passa, maior visibilidade e projeção para artistas e produções de diversas nacionalidades.

Resta saber quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela premiação, dará o braço a torcer e reconhecerá que um filme estrangeiro pode ser (e não raramente é) melhor do que até mesmo os melhores filmes americanos do ano.



Confira o discurso de agradecimento do ator espanhol Javier Bardem: