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sábado, 25 de abril de 2009

Felicidade é...


Poppy é uma mulher de trinta e poucos anos que vive no subúrbio de Londres. Sua vida não tem nada de extraordinário. Ela divide um simples apartamento com uma irmã, que não a compreende, e uma amiga. Professora de um colégio primário, Poppy se dedica a fazer a alegria das crianças e se veste quase sempre com roupas multicoloridas e brincos que lembram duas cerejas. Nas horas vagas, sai pra balada com as amigas ou descarrega o excesso de energia pulando numa cama elástica.

Sua vida amorosa está mais do que parada, mas Poppy não está nem aí pra solidão. Se lhe perguntam se ela se considera uma pessoa feliz, ela responde que sim, sem titubear. E vive sempre de bom humor. Nada parece abalar sua convicta felicidade. Será?

Um belo dia (para Poppy todos os dias são belos) roubam sua bicicleta. Ela sequer fica triste, apenas lamenta não ter tido tempo para se despedir dela. Poppy então decide aprender a dirigir e se matricula numa auto-escola. Eis que ela conhece Scott, seu professor de direção. Scott é a antítese de Poppy: mal-humorado ao extremo, sempre carrancudo, sempre de testa franzida.


Os primeiros encontros entre os dois rendem alguns momentos hilários, justamente pelo evidente conflito de personalidades, mas a cada nova aula de direção, o clima entre ambos vai ficando mais tenso. Poppy teme se deixar contagiar pelo negativismo exarcebado de Scott. Este, por sua vez, sente-se incomodado pelo excesso de otimismo de Poppy.

E assim ambos passam a representar um desafio um para o outro. A grande lição passa a ser apreender a lidar com as diferenças e a respeitar o modo do outro enxergar a vida (ou de conduzi-la, para usar um termo próprio do universo das auto-escolas).

Podem o otimismo e o pessimismo caminharem lado a lado numa mesma direção?


Essa parece ser a pergunta que o genial diretor inglês Mike Leigh (de pérolas como "Segredos e Mentiras", "Naked" e "Vera Drake") nos faz com seu novo filme "Simplesmente Feliz", uma comédia singela sobre a eterna busca da felicidade. Eterna sim, pois como se manter feliz o tempo todo mesmo com todas as agruras do cotidiano? A felicidade não é tão simples assim como o título brasileiro do filme procura vender. Até mesmo Poppy sabe disso. Ou pelo menos, vai tomando conhecimento à medida que vai convivendo com o rancoroso Scott.

Indicado ao Oscar de melhor roteiro original, "Simplesmente Feliz", que é em grande parte uma comédia, apresentando uma sucessão de cenas cotidianas e aparentemente desconexas da vida de Poppy (a ótima Sally Hawkins, vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim e do Globo de Ouro de Melhor atriz de comédia), vai incorporando o drama justamente com o aparecimento de Scott (o surpreendente Eddie Marsan) na história.


O talentoso Mike Leigh - um dos mais competentes diretores da atualidade - costuma ser mais conhecido por seus contundentes dramas, como é o caso de "Segredos e Mentiras", premiado com a Palma de Ouro em Cannes. Mas, mesmo em seus filmes mais descontraídos, como "Topsy-Turvy - O Espetáculo" e "Simplesmente Feliz", sempre trata de imprimir algo de dramático na história como contraponto à comédia, o que acaba por levar-nos a alguma reflexão além do mero entretenimento. É algo parecido com o que Woody Allen faz em suas comédias dramáticas.

Por isso, apesar do que possa parecer à primeira vista, não se trata de mais uma comédia adocicado do tipo que a crítica especializada americana gosta de classificar forçosamente como "the feel good movie of the year". Muito pelo contrário, mesmo com cenas hilárias (como a que Poppy é convidada a participar de uma aula de flamenco), o gosto que fica no paladar dos espectadores ao final da projeção não é o das cerejas. Tão pouco é um gosto propriamente amargo. Como na maioria dos filmes de Mike Leigh, o sabor está mais para o agridoce.

Isto porque, mesmo a despeito de todos os esforços de Poppy em não deixar-se contaminar pelas agruras da dia a dia (numa atitude que nos remete à chamada síndrome de Polyana e chega a irritar alguns espectadores menos avisados) nem tudo são flores na vida de Poppy - e não é pra ser mesmo. Cada acontecimento na sua vida parece querer por em cheque sua valiosa felicidade. Desde uma briga entre meninos no colégio em que ela trabalha, passando por um inusitado encontro com um mendigo atordoado, até o confronto final com seu malfadado instrutor.

Com isso, vamos sendo obrigados a questionar juntamente com Poppy, se a felicidade realmente existe ou se esta seria apenas uma questão de sorte e circunstância (o título original do filme é "Happy-Go-Lucky", algo do tipo "feliz torna-se sortudo"). Ou ainda, se assim como tudo na vida, não seria a felicidade também uma questão de escolha.

Afinal de contas, cada qual costuma guiar conforme sua própria personalidade e, apesar dos fatores externos (ou de quem quer que esteja no carona), em cada veículo só existe lugar para um na direção. Cabe a cada um de nós decidir que tipo de motorista prefere ser:


Confira o trailer do filme:

Um comentário:

Fabi disse...

Engraçado...
Ao ver o trailer desse filme fiquei curiosa em assisti mas confesso que um tanto quanto com o pé atrás.. me peguei pensando se seria um filme bobo demais.
Enfim, talvez fosse o meu humor à época e acabei não o assistindo.

Belo texto, me fez repensar em ver o filme, obrigada.